Um pouco da história do futebol em Salvador

15 de Set 2011 - 13h18

A sede da FBF não poderia estar situada n’outro lugar melhor. Para uma organização que já agraciou com medalhas e troféus de ouro os incontáveis campeões das várias competições que realiza a cada ano, é de bronze a figura de um notável poeta que, altivo com sua mão estendida, também reverbera de alguma forma seus intentos de fomentar o futebol na terra da capoeira.
 

Estátua da Praça Castro Alves. Foto: Blog do Rio Vermelho


Castro Alves não chegou a testemunhar a libertação dos escravos, tampouco chegou a assistir à chegada do esporte em Salvador, em 1901, através do jovem Zuza Ferreira. Entretanto, talvez tenha sido para melhor, uma vez que o autor dos mais belos poemas de clamor à Liberdade, se decepcionaria com a prevalência do preconceito contra raça e classe social, através da exclusão dos menos favorecidos à época.

O historiador Lucas Café, graduado pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, traz essa informação em um de seus artigos sobre a história do futebol baiano. “Segundo Thomaz Mazzoni, em seu livro História do Futebol no Brasil (1894 – 1950), Zuza Ferreira teria sido o primeiro a introduzir o esporte em Salvador. (...) Seu pai era funcionário de alto escalão de um banco inglês na cidade”.

A Bahia foi o primeiro estado do Nordeste a acolher essa arte que hoje tanto divulga nosso país nas terras alheias.

“Na seção esportiva do jornal Baiano ETC, do dia 9 de julho de 1930, o cronista ao prestar uma homenagem ao foot-ball association, afirma que o futebol chegou na Bahia ‘(...) em 1903, graças aos esforços de Arthur de Moraes, Zuza Ferreira, Álvaro e Juvenal Tarquínio, Gleig May, e muitos outros, foi ele introduzido triumphalmente na Bahia’”, escreve Café.

 

Time do Vitória em 24 de dezembro de 1908 (publicado na Revista do Brasil).
Foto: reprodução de Lucas Café


Apesar do conflito de datas – essa diferença de dois anos é ínfima –, o historiador acusa que “enquanto Zuza Ferreira e Arthur de Moraes eram jovens brancos da elite baiana, Álvaro e Juvenal eram filhos do mulato Luiz Tarquínio, grande empresário da cidade”, contudo, mesmo sendo “afrodescendentes, os irmãos Tarquínios compartilhavam dos mesmos espaços de socialização dos filhos das elites brancas de Salvador, isto devido à posição econômica da família na sociedade baiana”.

É, ao que parece, no início do século XIX a nossa sociedade já apresentavam uma característica que muitos baianos (e brasileiros) atribuem quase exclusivamente aos estadunidenses, ou seja, o aceitar um afrodescendente em consonância com um Livro Sagrado – não a Bíblia, mas os livros de registros financeiros dos bancos.

A menção aos irmãos Tarquínio naquela matéria parece ser a única exceção à constatação de Café de que, pelo menos durante os anos iniciais, só quem poderia bater o baba – expressão usada aqui propositalmente em contraponto ao louvor dos nobres sportsmen por parte da imprensa da época – eram os “brancos da alta sociedade, brasileiros e estrangeiros que se enfrentavam sempre que podiam nos espaços reservados para a prática do esporte, como o Campo da Pólvora. A presença de populares nos primórdios do cenário futebolístico de Salvador era barrada pelos estatutos e regulamentos”.

 

Foto ilustrativa. Fonte: Blog Mínimo Ajuste


Embora a questão do preconceito racial tenha sido pontuada aqui como abominável fator que fundamentava a separação entre um futebol oficial e outro popular, é crucial reforçar que essa discriminação não era apenas referente à pigmentação da pele. Todo pobre, fosse ele negro, mulato, mais ou menos escuro, não-branco de qualquer ordem, até um branco sem ocupação digna, estava banido daquele meio.

“Nos estatutos das ligas, mesmo das ligas consideradas mais tolerantes, que começaram a surgir na década de 20, haviam imposições à entrada de pessoas populares, (...) barravam a entrada de desempregados, para que a honra da liga não fosse abalada”, conta-nos Café.

A despeito de todo esse início moralmente desastroso que o futebol teve aqui em Salvador, extrai-se disso um ensinamento. Em se tratando de cultuar essa atividade esportiva, a qual como tantas outras, no mínimo é uma fonte de saúde, só se deve abolir mesmo é todo tipo de preconceito. E isso inclui, diga-se de passagem, enaltecer apenas os jogos da capital e esquecer os do interior, que é de onde vêm, normalmente, atletas talentosos que atuam tanto em outros estados quanto em outros países.

 

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